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Diferenças

por Miki Mochizuki


...“o objetivo do treinamento é apertar a folga, endurecer o corpo e polir o espírito”.

Recentemente, ao assistir alguns exame de faixa de quinto, quarto e terceiro kyu, observei muitas diferenças na forma de realizar o mesmo movimento entre os vários alunos. As variações de postura, de posicionamento, de conexão, de respiração, da forma de aplicar e receber o movimento. Diferentes notas eram dadas pelos diferentes senseis que analisavam com esmero cada movimento. Um pensamento varreu minha mente: o que está certo e o que está errado?

Diferentes emblemas estão pregados no peito dos alunos, identificando seus dojos e, por conseguinte, seus senseis. Era interessante observar que as diferenças se reduziam entre os alunos de um mesmo dojo. Provavelmente parte da diferença estivesse nos ensinamentos transmitidos pelos diferentes senseis e também na multiplicidade das forma de assimilação de seus alunos.

Cada pessoa se distingue de outra por suas características físicas únicas, sua personalidade, seus pensamentos, suas atitudes, sua diferente forma de interagir com o meio. Pelo mesmo motivo, principalmente no início do treinamento as diferenças saltam mais aos olhos. Mas à medida que existe convívio e treinamento as diferenças se reduzem e aumentam as semelhanças. Por isso os alunos dos diferentes senseis reproduziam os movimentos com maior similaridade. 

Não há, no entanto, certo ou errado, mas fases diferentes do mesmo aprendizado, assim como variações na reprodução dos movimentos conforme as características de cada indivíduo. O momento do exame de faixa é uma oportunidade de enxergarmos essa grande variabilidade de possibilidades e observar o que parece funcionar melhor para cada um.

O-Sensei, Morihei Ueshiba, disse certa vez que “o objetivo do treinamento é apertar a folga, endurecer o corpo e polir o espírito”. Quanto mais treinamos, mais aprendemos sobre as aberturas que deixamos nos movimentos. E quanto mais evoluído o indivíduo com que treinamos, mais encontramos essas aberturas e conseguimos nos aperfeiçoar. O-sensei também disse que “o Aikido não é uma técnica para lutar contra um inimigo ou derrotá-lo. É uma maneira de conciliar as diferenças que existem no mundo e fazer dos seres humanos uma família. Significa que o segredo do Aikido é a busca da harmonia com o Universo, é tornar-nos unos com o Universo. Seus praticantes devem buscar esse entendimento por meio de treinamento diário”. Quanto mais treinamos, mais conciliamos as diferenças. E quando transportamos os aprendizados para nossa existência e para nossas atitudes diárias, mais harmonia parece surgir. 

Numa situação de conflito, compreender que à medida que existe um ponto de conflito, todo o restante do corpo e da mente continua livre para resolver o conflito. Entender que é melhor se esquivar de um ataque sem fugir, utilizando o uke nagashi, ou meramente pelo reposicionamento para encontrar o melhor ângulo e momento para deter a agressão e permitir o restabelecimento da harmonia, sem folgas, sem espírito de revanche, de contra-agressão, mas de verdadeira conciliação. É isso que se treina, acima de tudo sobre o tatame quando se treina Aikido. Para tanto é preciso que o treinamento abarque alguns fundamentos ensinados pelo O-sensei.

Maai, a distância segura que se deve guardar para ter tempo de perceber a movimentação, o ataque, a intenção e para que seja possível reagir é um dos aprendizados fundamentais. Próximo demais nos torna vulneráveis, distante demais nos deixa desconexos. 

Awase, o momento exato para se mover. Antecipar é perceber um movimento que está nascendo, o que é diferente de se precipitar e fazer um movimento que o torna um agressor ao invés de alguém que busca a harmonia. É preciso muito cuidado também para não aguardar demais e ser atingido pelo agressor de forma inesperada. Awase exige atenção e foco. 

Hami, posicionamento em situação de equilíbrio para possibilitar que a movimentação ocorra de forma harmoniosa. Nesse conceito também está contido o conceito de Kakudo, que pode ser simplificado como o ângulo de entrada para que o movimento tenha o melhor efeito.

Kuzushi, que é produzir a quebra de equilíbrio do uke ou do agressor para que se permita unificar as intenções e quebrar a vontade de agressão e se possa realizar a condução do movimento para um caminho de harmonia. 

Musubi, a conexão que deve estar presente a todo momento para que se possa realizar condução do movimento. A quebra da conexão exige reposicionamento, readaptação do movimento, buscando-se um novo hami, kakudo e kuzushi. 

Kokyu, que significa respiração, mas significa o fluxo do Ki, dessa energia que está presente em tudo, e que nos permite as projeções e imobilizações sem o emprego de grande força física. O fluxo de ki só é conseguido com o relaxamento e o cuidado com a respiração. 

Zanshin, a manutenção do foco e da energia sobre o uke e sobre todo o ambiente. Pode-se dizer que é uma conexão, um estado de atenção que se deve manter sobre o uke e ao redor como um radar que deve estar ligado. 

Essas são essências, que eu pretensamente acredito que devemos buscar em todos os treinamentos que realizamos. A busca desses fundamentos pode nos auxiliar a encontrarmos o Aiki em cada técnicas que treinamos, aliados aos cinco fundamentos do Budo: shoshin (mente de principiante), zanshin (estado de atenção), mushin (estado mental sem medo, raiva ou ansiedade), fudoshin (coragem e a estabilidade demonstradas mentalmente e fisicamente) e senshin (espírito de compaixão que abraça e serve a toda a humanidade e cuja função é reconciliar e dissipar a discórdia no mundo). 

 O-sensei disse que “o segredo do Aikido não está no modo como você move os pés, está no modo como você move sua mente”. Tenho certeza de que ainda nem toquei esses fundamentos, mas compartilho essa reflexão com vocês para que possamos nos ajudar a ao menos tentarmos caminhar juntos num desenvolvimento constante. Vamos treinar Aikido, pessoal!

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